Diário de Bordo Mindfulness

  • Mindfulness is defined as “paying attention on purpose to the present moment without judging” (Jon Kabat-Zinn). This means developing the ability to pay deliberate attention to our experience and to focus in the “here and now”. We learn to tune in to what is going on in our mind and body. Becoming more aware of our thoughts, feelings and sensations in a way that suspends judgement and self criticism can have surprising results, like finding inner strengths and resources that help in making wiser decisions and having more fulfilling relationship, in children, young people and adults alike.

    03/04/2018

    Começamos a nossa aventura às 3 da manhã, no aeroporto Francisco Sá Carneiro. O nosso voo partiu às 5:15, com escala em Lisboa e chegámos a Viena às 12:20. Ao local da formação chegámos às 14:30. Travámos o primeiro contacto com o grupo de trabalho e com a formadora. Somos 5 professoras: 2 portuguesas (nós), 2 croatas (a Martina e a Danyela) e 1 do Liechtenstein (Nina). A formadora  - Paola Bortini - é italiana, mas vive em Viena há vários anos.

    Estamos todas sentadas em círculo, no chão; no centro está um vaso com flores, uma vela, frascos com aromas, e alguns objetos de meditação tais como "singing bowl and tallking piece".

    Houve uma breve apresentação dos participantes, uma partilha das suas expectativas relativamente ao curso, do que já sabiam sobre o tema e de algo pelo qual se estava grato. De seguida, a formadora introduziu o conceito de Mindfulness (Be aware of the present moment). Houve referência ao modelo de Jon Kabat-Zinn e de Denny Penman e à sua técnica respiratória, tendo praticado a mesma através de alguns exercícios.

    04/04/2018

    Levantámo-nos às 7 da manhã. Às 8:45 já estávamos em frente do Museums Quartier, ponto de encontro com as colegas e a formadora. Seguimos para a Escola Secundária Rahlgasse (www.ahs-rahlgasse.at) para assistir a um workshop sobre mindfulness intitulado "Lidar com o Stress", dinamizado por Peter Hofmann. Conhecemos a Bárbara, professora de Geografia e História, responsável pelo workshop a que iríamos assistir e coordenadora dos projetos internacionais da escola. 

    Relativamente ao Workshop, estavam presentes 14 alunos de diferentes faixas etárias. Depois da apresentação de cada um e da razão pela qual tinham escolhido este workshop, começaram com os exercícios de respiração: "o homem-aranha", "o homem a fazer ski",  e o "esparguete".

    Depois fizeram exercícios de reconhecimento do corpo: primeiro com a mão - contemplando, batendo palmas, esfregando-as; depois os pés - sentindo-os no chão; depois percorrendo rapidamente todo o corpo - "Body scan". 

    Escreveram o nome calmamente numa folha de papel, várias vezes prestando muita atenção aos movimentos da escrita. Em pares, escreveram letras e palavras nas costas do outro com a ponta do dedo para que este tentasse reconher as mesmas.

    Formou 2 linhas e um grupo de alunos teve de partir de uma linha tentando alcançar a outra o mais devagar possível. O vencedor seria o mais lento a chegar à linha.

    Em pares de novo, um fala durante dois minutos sobre o stress que sente enquanto o outro ouve sem reagir.

    Em grande grupo perguntou como é que reagem ao stresse - comportamentos, atitudes, sentimentos, reações. Apontaram ainda estratégias que usam quando se sentem stressados.

    Colocou um ponto no meio do quadro e pediu aos alunos que o focassem enquanto ele faziam gestos e ruídos.

    Depois, cada aluno teria de dizer um número em sequência e sempre que dois falassem em simultâneo, o jogo recomeçava sendo necessário que todos participassem.

    Elaborou um esquema da mente dividindo-a em pensamento e sentimento. O primeiro era associado a um cachorinho agitado e sempre em movimento e o segundo a uma aguia que toma consciência dos movimentos, observa, reage focada quando necessário.

    Entregou uma goma a cada aluno e este tinha que a observar cuidadosamente, tocá-la, cheirá-la e depois prová-la. E só depois puderam comê-la.

    Inquiriu os alunos sobre gestos automáticos do dia a dia.

    Sentados no chão partilharam uma história ou alguma coisa pela qual estavam gratos.

    Depois, seguimos a Bárbara numa visita à escola, que nos foi falando da mesma. Tem 700 alunos dos 11 aos 18 anos, 80 professores e 1 secretária. O horário é essencialmente das 8:15 às 14. A sua missão dividia-se em 3 tópicos: igualdade de género, ambiente, intervenção social. Os alunos podem almoçar na cantina a partir das 12 horas. Os alunos de 11, 12 e 13 anos podem permanecer na escola durante o período da tarde (das 14 às 16:30) em regime de ATL, com atividades várias tais como realização dos TPC, leitura, jogos, artes, desporta e passeios a pé. As disciplinas centrais no currículo, também por causa da avaliação do PISA, são Alemão e Matemáticca. A escolaridade obrigatória é até aos 18 anos de idade, sendo o ensino secundário de 8 anos. No final do Secundário os alunos são submetidos a exame qu se divide em duas componentes: o trabalho escrito e uma apresentação oral. Durante estes três dias, após a interrupção da Páscoa, algumas escolas desenvolvem workshops sobre temas variados tais como teatro, música, desporto...dinamizados pelos docentes da instituição, que podem nada ter a ver com as disciplinas que lecionam.

    Após a visita e a conclusão do workshop fomos almoçar com os formadores.

    Regressámos ao local da formação onde fizemos uma sessão de meditação - "body scan"durante 40 minutos. Segiu-se um momento de diálogo sobre o sentido/vivenciado e ajustaram-se detalhes relativos ao programa do dia seguinte. Depois das 5h conseguimos finalmente dar uma volta por Viena e apreciar alguns dos seus pontos de interesse. 

    05/04/2018

    Levantámo-nos às 6:30 da manhã com um dia nublado e mais fresco. Depois do pequeno-almoço, dirigimo-nos ao parque de Praterstern onde realizámos a sessão da manhã. Este parque é atualmente uma grande zona verde da cidade e, no passado, era a zona de caça do imperador Francisco José. Iríamos dedicar-nos a fazer "Mindfulness na natureza", com uma caminhada em silêncio, envoltas numa "bolha", contemplando a natureza, escutando os sons, observando cuidadosamente o que nos rodeia, vivenciando o momento presente. No fim da caminhada, junto ao lago, sentámo-nos numa mesa do parque. A formadora distribuiu uma folha azul e outra branca, nas quais teríamos de registar o que tinhamos visto (na primeira) e o que tinhamos sentido (na segunda). De seguida, trocámos as folhas uns com os outros e lemos o que cada um tinha escrito, identificando pontos comuns e divergentes. Atendendo ao vento que se fazia sentir, dirigimo-nos ao hotel de uma das colegas para continuarmos a reflexão. No caminho, a pares, fomos trocando impressões sobre o que tinhamos sentido durante a caminhada. No hotel, dialogamos sobre estratégias semelhantes que podemos usar em contexto escolar. Apanhámos o metro e voltámos ao local de formação, onde terminámos a manhã com a apresentação do livro"Sitting still like a frog" de Eline Stein, que apresenta algumas atividades de Mindfulness para crianças. Fomos juntas almoçar a um restaurante paquistanês buffet (Deweer"), onde cada cliente decide quanto quer pagar no fim.

    Apresentou ainda o livro de Thick Nhat Hanh "Happy teachers change the world". Neste livro, o autor fala da sua experiência enquanto monge budista Vietnamita que acredita que o seu propósito no mundo não é estar num mosteiro, mas vir para o mundo promover a educação. Em França criou uma comunidade, onde vive com os seus seguidores, a "Plum Village". O livro aborda a ideia de que os professores devem primeiro estabelecer as suas práticas de mindfulness, uma vez que tudo o que vão fazer em sala de aula se vai basear nessa prática. Na Plum Village, aplicam os ensinamentos nas suas vidas e no contexto educativo. O seu ensinamento chave é que podemos aprender a viver felizes no momento presente, através do mindfulness, e que este é o único caminho para alcançar a paz, quer para si próprio quer no mundo. O livro dá ainda várias sugestões de exercícios que os professores podem desenvolver com os alunos em sala de aula (https://plumvillage.org).

    A seguir ao almoço continuámos a formação. Desta feita, com a apresentação de um neurocientista americano e da sua teoria sobre o cérebro, Daniel Siegel (www.drdansiegel.com/blog Daniel Siegel e http://marc.ucla.edu/mindfulmeditations). A formadora deu-nos a conhecer a teoria do autor sobre os 3 cérebros "mind, heart and gut", uma vez que os cientistas descobriram que em cada um destes há conexões nervosas. 

    Apresentou, de seguida, o projeto .b, um projeto britânico de mindfulness para as escolas (http://mindfulnessinschools.org). Este projeto tem um programa de 8 semanas para professores, em que se trabalham diferentes tópicos a desenvolver com alunos dos 11 aos 18 anos, nomeadamente:1. Playing attention; 2. Taming the animal mind; 3. Recognising worry; 4. Being here now; 5. Moving Mindfully; 6. Steping back; 7. Befriending the difficult; 8. Taking in the good; 9. Pulling it all together.

    O dia não podia ter terminado da melhor maneira com um momento de puro deleite de música clássica. Tivemos o prazer e a felicidade de assistir a um concerto de música barroca e clássica pela Orquestra Filarmónia de Viena, no palácio de Schonbron. Este grupo musical, constituído por sete músicos e dois solistas, interpretou peças bem conhecidas de Mozart, Vivaldi, Donizetti, Strauss, Beethoven, Verdi e Tschaikowski. 

    06/04/2018

    Mais um dia dedicado a "Mindfulness". Começamos com o sol a brilhar às 6h30min. Tomámos o pequeno-almoço e, depois de uma curta viagem de metro (U3 até Volkstheater) e de Tram (linha D - Rossdorf), iniciámos a formação às 8:30. Depois do habitual momento de meditação, escrevemos uma carta dirigida a alguém que nos é querido e que estaria a passar por um momento difícil, sendo o objetivo da missiva confortar essa pessoa. De seguida, escrevemos uma outra carta, desta vez dirigida a nós próprios a propósito de uma situação ou problema difícil que tivéssemos vivido. 

    O tema desta manhã era “Mindfulness and self-compassion”. E foram focados os conceitos-chave da “Mindfulness”: acceptance (of my humanity); compassion (the need to take care of others and of ourselves); empathy (heart connection). Foi anda abordado o conceito de metta meditation, uma prática de apoio ao "Mindfulness" que envolve o conceito de felicidade, de segurança, de saúde e realização pessoal/preenchimento…

    O objetivo do ser humano é a felicidade, de acordo com a tradição oriental. No ocidente diz-se que é o bem-estar.

    A partir da apresentação do livro “Emotions and essential oils – A reference guide for emotional healing”, a formadora deu-nos a conhecer um conjunto de óleos e como podem ser associados a emoções que sentimos e a promover o bem estar emocional.

    Durante a tarde abordámos o tema da “Mindfulness aplicado à liderança/gestão”, baseando-se no livro “The essentials of Theory U”, de Otto Scharmer, professor e investigador do MIT (www.ottoscharmer.com). Esta teoria utiliza a metáfora do U para demonstrar como deve ser a comunicação no mundo empresarial. O autor diz que o modo como ouvimos/observamos influencia a qualidade da comunicação. Define vários níveis de escuta/observação.

    1. Dowload – Eu estou no centro. Eu faço aquilo que faço, porque já o faço há algum tempo e já o conheço bem (como as ações de auto-pilotting). A voz do julgamento não nos permite avançar deste nível para o seguinte.
    2. Factual listening – Eu estou no que observo. A minha atenção está dirigida para os factos. A abordagem científica baseia-se neste nível. A voz do cinismo não permite que se avance para o nível seguinte.
    3. Empathic – Eu em ti. A atenção agora está voltada para a fonte da informação, para a pessoa. A voz do medo não permite que se avance para o nível seguite. Medo de perder uma determinada reputação ou de afetar a imagem que têm de nós, medo de não ser perfeito, adequado.
    4. Generative – Eu, aqui e agora. Como resultado da comunicação alguma coisa está a mudar em mim.

    Para conseguirmos evoluir de nível comunicacional, referiu-se um conjunto de estratégias que se apresentam. Para evoluir do 1.º para o 2.º nível devemos ter uma mente aberta cultivada por curiosidade e interesse genuíno; do 2.º para o terceiro, ter um coração aberto e conectar com o outro (ver um ser humano no outro), ter compaixão, a empatia em ação; do 3.º para o 4.º, ter uma vontade aberta, ou seja, fazer uma escolha consciente em relação ao que não é necessário para deixar entrar o emergente, tendo de ser corajoso, mostrar vulnerabilidade e autenticidade. A mindfulness é a experiência que nos convida a prestar atenção ao que ouvimos, dizemos e pensamos e, por essa razão, temos de abrandar para conseguirmos ver com clareza.

    A formadora referiu ainda que devemos ouvir com a mente, com o coração e com a intuição. Devemos ouvir com o corpo inteiro.

    Estes quatro níveis de comunicação podem acontecer a nível pessoal, interpessoal, organizacional e societal.

    A sustentabilidade da decisão será cada vez mais eficaz conforme nos vamos aproximando do último nível. Se eu não tomo parte da decisão do líder, então a decisão tomada não irá ser sustentável. A sustentabilidade das decisões tem na sua base a participação de todos.

    Terminamos este dia com a meta meditação por nós, por alguém que amamos, por alguém conhecido, por alguém com quem já estivemos em situação conflituosa, por todos os ser vivos. “ May I be happy, may I feel safe, may I be healthy, may I live a life with ease”.

    “ May he be happy, may he feel safe, may he be healthy, may he live a life with ease”.

    07/04/2018

    Iniciámos o último dia de formação às 9 horas, com uma breve meditação. O tema da sessão de hoje foi “Minddful communication”. A formadora falou do livro “Everyday blessing” de Jon Kabat-Zinn. Iniciámos a atividade de pares: durante 7 minutos um de nós perguntava “What is important to you?” mantendo uma escuta ativa enquanto o colega respondia. Depois, inverteram-se os papéis. Finda a atividade, cada um foi convidada a escrever o que lhe ocorre, sem grande reflexão, sobre a atividade realizada. Entretanto cada um partilhou o que sentiu sobre este exercício do mindfulness communication.

    Seguiu-se a escrita de uma carta para si próprio sobre o que se experienciou durante a semana, decorando-a com stickers. Metemo-la num envelope, registámos a nossa morada e esta será enviada daqui a 6 semanas pela formadora.

    Para finalizar, cada um escreveu em três folhas diferentes 3 ideias elegantes acerca do modo como vai dar continuidade a esta experiência no seu local de trabalho e na sua vida, havendo um momento de partilha. Depois a formadora perguntou-nos como nos poderemos preparar melhor para essas atividades que pretendemos desenvolver e voluntariou-se para nos oferecer uma hora de videoconferência para nos apoiar no necessário.

    Em jeito de despedida, contou-nos a história de um rato…

    E terminou assim a nossa semana de formação!